Amiúde – cartas para Cris
por Miriane Figueira
Há imagens que nos acompanham como um patuá. Outras, nos faltam – e é nessa ausência que a memória (ou a falta dela) se torna insistente. Em “Amíude – cartas para Cris”, Miriane Figueira nos convida a visitar o terreno delicado da ausência, onde o luto e o afeto se entrelaçam como uma gota de chuva que persiste, amiúde.
A exposição nasce da experiência íntima da artista diante da morte precoce de sua irmã, Cris, aos três anos de idade. Aos nove anos, Miriane fez dos álbuns de família seu refúgio, começou a recortar fotografias de família, transformando retratos cotidianos em um 3×4. Em gesto simbólico de amor, começou a carregar consigo um 3×4 em sua carteira que “não tinha dinheiro, nem documentos, só um bocado de preciosidades”. O que sobrou desses recortes agora se tornou esta série com oito fotografias de duas irmãs, feitas pelo olhar amoroso de sua mãe.
Ao centro da sala, duas camas de solteiro. Uma está vazia. Ambas ressoam como uma metáfora do que ficou: a ausência e a presença do silêncio se instala no dia seguinte à perda.
Ao lado da porta de saída, há também uma carta, escrita por Miriane para sua irmã — um testemunho da elaboração do luto ao longo de 30 anos. A carta está disponível para leitura aqui ou em casa. Convidamos você a sentar-se em uma das camas, se desejar. O luto demanda tempo e trabalho. E aqui há tempo, há espaço e há afeto. Tome o tempo que precisar.
Por fim, a exposição propõe um gesto de partilha: uma obra para ser levada embora. Cada visitante pode levar consigo um pequeno fragmento em 3×4 de uma imagem de Cris ampliada — Essa peça compõe uma espécie de quebra-cabeça em uma relação simbólica com a memória coletiva. A imagem só poderá ser inteiramente vista caso todos os que passaram por esta exposição e levaram consigo um pedaço desta imagem se reencontrem.
“Amíude – cartas para Cris” é um rito de passagem, um rememorar saudoso e uma carta de amor. Um trabalho afetivo que insiste em permanecer nos intervalos da dor e da beleza, lembrando que a memória é feita de restos, de rastros, e de encontros — ainda que temporários — com o que já se foi.









